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tinha uma cruz de guerra na gaveta do fundo do guarda-fato, e memórias difíceis de ajeitar no desassossego das noites em claro. à revelia do sono. às voltas na cama. às voltas no quarto. aos baldões.

    na pele do rosto, rugas temporãs, esculpidas pelas chuvas rápidas do cacimbo. e as margens indeléveis de um rio para além do horizonte. um rio  de tempos incertos. serpenteando em círculos mais e mais apertados na  autofagia de um abraço estrangulado. na asfixia de um tempo circular, sem  retorno nem eternidade. gasto.

    os sentidos embotados pelo travo amargo de mortes adivinhadas. o passo a passo no medo da picada.

    e mais uma porção de coisas: recordações roídas pela traça, atiradas ao desprezo de um fundo de baú de cheiro irrespirável a naftalina. há muito que as tinha lá fechado e lançado a chave ao mar. chave que a mágica implacável das marés insistia em trazer-lhe de volta à rebentação das lembranças, num estorno de vaivéns.

    e tinha sempre um amor na mira do coração. nem que fosse passageiro; durasse meses, dias. nem que fosse platónico, feito de sinais, flutuante de indícios, intocável. nem que fosse comprado, de fingir. ou tão-só imaginado, irreal.

    o amor era a sua forma de respirar. corpo e alma. fora dele, o abismo, o perder-se em torno de si próprio no suicídio de uma vertigem centrífuga.

    um sobressalto mais insuportável arrancou-o à agitação do sono. respiração pesada, difícil. humidades tropicais a encharcarem-lhe o rosto. o calor sufocante da memória. áfrica era coisa distante, e no entanto continuava a tropeçar nela a cada passo, a cada ranger do sobrado. a cada voltar de página, e de medo.  a memória..., a memória é a traição do tempo.

    levantou-se no escuro. na protecção do escuro. aprendera a deslocar-se a coberto dele; habituara-se à cumplicidade da noite. lá, onde qualquer luz  podia ser fatal. o simples acender de um cigarro, o reflexo mínimo de um brilho.

    trémulo, entreabriu uma gaveta ali mesmo à mão. tacteou automaticamente o volume familiar das resochinas, guiado pelo hábito do gesto mil vezes repetido. colou duas ao meio da língua, e engoliu-as a seco.

    aguardou-lhes o alívio sentado na berma da cama. cabeça recolhida na concha enorme das mãos. aguardou. lutando contra os delírios da febre, e os espectros da noite africana. voltar ao sono seria voltar ao passado.  reacender-lhe os estilhaços. devolver-se aos silêncios de terror.

    em áfrica, o pretexto era viver para se manter vivo. agora, a vida era uma imposição dolorosa e inútil como uma dádiva embaraçosa, o peso de um lastro excessivo. arrastava-a consigo sem saber que destino ou sentido lhe dar. não devia tê-la trazido. devia ter tido a coragem de havê-la despido e deixado por lá. junto com as recordações ainda frescas. como tantos outros haviam feito, antes e depois dele. a morte batia-lhes todos os dias à porta. às vezes, deixavam-na entrar.

    agora que a trouxera, tinha de lhe dar um rumo que a alimentasse, antes que lhe morresse à míngua nas mãos.

    o tempo a fechar-se em círculo. estonteante. quase a poder tocar-lhe.

    o fogo cruzado do passado em cada esquina, em cada sombra. a balançar perigosamente na fronteira frágil do tempo. momento e memória a confundirem-se assustadoramente.

    recordar com esforço o presente. a tentação de retardá-lo; empurrá-lo para um futuro eternamente adiável.

    e assim permaneceu no escuro, até a memória do escuro se lhe tornar insuportável.
    sair à rua. sacudir os fantasmas. descer a calçada, para de novo subi-la. e de novo descê-la. provar, por círculos, que a distância entre dois pontos nunca é a mais curta.

    revistar as sombras da noite. revisitar cada esquina, cada recanto. uma e outra vez. em busca de um sinal, de algum presságio porventura  despercebido das vezes anteriores.

    dar cada passo como quem inicia uma viagem de regresso duvidoso. improvável.

    a noite estava fria e molhada.

    e a rua era estreita e crivada de escolhos e abismos. poderia afundar-se a cada passo, a cada instante, mas ele seguia a direito. indiferente às poças e à lama.

    poderia amá-la ali mesmo se a encontrasse; se ela existisse. uma vez tivera a ilusão fugidia de ver-lhe o reflexo num vidro de montra.

    há muito que sonhava com ela. ainda que sem grande convicção, sem exagerado empenho. quanto mais forçamos os sonhos, mais eles se esquivam de nós.

    subir-lhe e descer-lhe as marés do corpo,  feito oceano.  e tornar a subi-las e a descê-las, e a subi-las e a descê-las, até o ímpeto das vagas se quedar saciado.

    a rua era estreita e crivada de escolhos e abismos; a noite, fria e molhada. mas ele seguia a direito. tão a direito quanto se pode caminhar numa rua estreita, sinuosa e crivada de abismos.

    pela nesga de uma fugaz aparição por entre nuvens, o leite do luar derramando fantasmas na sombra das árvores.

    e a noite a perfilar-se em contornos de silhuetas indistintamente femininas. vultos ambíguos de presas predadoras. a serem resgatados pelo contra-luz amarelento dos faróis dos carros que chegavam e partiam.
    luísas, belas, adélias, nomes de guerra. podia adivinhar-lhes as histórias. conhecia-lhes de cor os enredos. tudo histórias interrompidas por imperativos de amor. poderia até recitar-lhas ao ouvido, talvez sem que nem elas próprias as reconhecessem, e com elas se comovessem, ou rebolassem num riso debochado.

    as histórias são todas iguais. variam apenas no pormenor da gravidade com que são contadas.

    luísas, belas, adélias, portos de abordagem de automóveis solitários, escassos, de intenções nocturnas, patrulhando silhuetas femininas plasmadas pela chuva. rostos desbotados, vestígios garridos de batôn no carmesim murcho dos lábios. só reconhecíveis ao aproximarem-se das frestas dos vidros das janelas semi-descidas ao nível dos olhos. e o acordo a firmar-se ou não, ali mesmo, num breve pingue-pongue de palavras-código. poucos os detalhes a acertar. o jogo é conhecido, os termos precisos. apenas o tempo de um confronto de rostos com expectativas, desejos com ofertas. depois, portas que se abrem ou não, acolhendo o entendimento mútuo de uma réstia de ilusão de companhia ou voltando a mergulhar na noite tão vazios como a ela chegaram. e a noite vai-se enchendo de uma imensidão de vazios. talvez a noite não passasse de isso mesmo: um espaço imenso, repleto de imensos vazios.

    no canto de um bar defronte, um homem idoso enrosca num sobretudo molhado a solidão que lhe sobrou de uma vida. ausente, parado de olhos, à sombra de um copo de bagaço de enganar o frio, ruminando glórias de outros tempos. nunca vividas. bigode circunflexo acentuando-lhe os lábios. magros. olhando a rua através do vidro duplo da montra com boiões de drops empoeirados e pastilhas de mentol de invólucros desbotados por sóis de outros dias. voyeur de um amor cada vez mais caro para a sua reforma.

    outros clientes, não os havia; apenas algumas figuras dormitando no aconchego morno do álcool e um vaivém de sombras entrando e saindo afadigadas no frenesi do cio insaciável das horas mortas.

    salpicos de chuva projectados da valeta pelas rodas dos carros nas  tangentes estreitas da calçada lambiam veias abertas na sujidade acumulada  na vidraça da montra; a irem desaguar aos borbotões na sarjeta logo mais  abaixo. uma água grossa e castanha, pantanosa, arrastando consigo os restos do verão e as primeiras folhas tombadas de outono. o amarelo letal do outono. a desaguar no oceano da cidade.

    bolsas de vazio cavadas pelas torrentes de chuva na pressa dos transeuntes em busca de um abrigo, um tecto, uma cama, um beiral. a vida pode ser uma incessante busca de abrigo; uma incessante fuga às bátegas geladas da chuva e noites de solidão.

    os últimos transeuntes da noite a cruzarem-se com os primeiro da manhã. as luzes a capturarem as borboletas mais tardias, e os últimos táxis a largarem corpos amarrotados das ressacas de amores à la minuta. alheados. distantes. guiados por um sonambulismo autómato, de quem sabe para onde vai na indiferença de querer ir.

    prosseguiu a caminhada. sem outro rumo ou propósito que não fosse caminhar.

    prosseguiu a caminhada, até que uns faróis largaram junto de si uma silhueta diferente. tão próximo, que lhe pôde sentir o calor. o fogo dos cabelos, contrastando com os negros e castanhos mediterrânicos. o tom gaélico da fala. o mar dos olhos. vagas revoltas. corpo refugiado; sabia-se lá de que guerras, de que lembranças.

    ela não podia adivinhar o rasto de perfume que deixava à passagem. um perfume natural. indelével. de corpo em flor.

    tomou-a por um braço, e arrastou-a consigo. e ela deixou-se levar, dócil, quase sopro, após um brevíssimo espasmo de surpresa. deixou-se levar, como se fosse esse o seu destino de sempre; conhecesse de cor cada passo do caminho. caminhos passados a papel químico. até ao quarto. um quarto na periferia pobre da cidade.

    o nu das paredes reverberando a angústia do trompete de gillespie, rodando e rodando no sem fim do abandono do prato do gira-discos.

    livros espalhados ao acaso, pelo chão, pelos móveis. os copos da véspera, ainda húmidos dos segredos ditados ao ouvido pelos goles de whisky.

    havia ensaiado aquela noite à minúcia do segundo.

    fazer amor até o amor escorrer pelas paredes. inundar todo o quarto. um amor físico. espesso. a três dimensões. até diluir as incertezas, afogar os presságios.

    mas acabou por despenhar-se na vertigem de um amor precipitado e urgente. sem tempo.

    despiu-se à pressa. sem cerimónia nem volúpia. e fez um amor à queima-roupa, mecânico e silencioso... qualquer som podia ser fatal. um amor enrodilhado. desleixado. farrapos. nem se preocupou em apanhar as sobras de coração derramadas a esmo pelo chão. mais tarde as varreria.

    só depois de aquietados os corpos, vieram as falas. sem a preocupação de serem entendidas ou não. ela, falou-lhe da sombra verde de uma ilha deixada para trás, à deriva de recordações difíceis de enfrentar. a sua ilha verde. e a memória, sempre a memória... e falou-lhe de morte, de fuga... vagamente. como  quem receia, ou simplesmente não gosta de falar do que deixou para trás. ele, respondeu-lhe com uma guerra distante, absurda, sem fuga, nem retorno. falaram por falar. para preencherem os interstícios do tempo que sempre restam do amor. quantas vezes não sobram as palavras e nos escorrem pelos cantos da boca, feitas aguaceiro.

    e ele falou-lhe de si, dela, deles, da cidade ideal, de coisas tão bonitas que quando, por fim, lhe fala de solidão, já ela dorme um sono de criança aninhada no seu peito. agora o monólogo prosseguiria a um.

    sentia-lhe o respirar profundo e ritmado, o calor de animal esplêndido queimando o ar, incendiando a noite. os cabelos soltos na nudez do abandono, e a leveza, a leveza de saber-se imponderável, sonho.

    no antebraço, rastos de agulhas cegas tacteando caminho em busca nervosa de vasos difíceis, esquivos. dos mais antigos, de uma cicatrização azulada, ao vermelho quase vivo dos mais recentes, uma hierarquia de ansiedades, um calendário de desesperos, fugas. um roteiro de avenidas e subúrbios.

    e o tempo... essa massa pegajosa e inevitável que a levaria consigo ao despertar. poder sustê-lo, como quem sustém a respiração; manter aquele sono, eternizá-lo para que o dia não raiasse. prolongar o sonho para lá dos limites do sonho; o real para lá dos limites do real. aquele corpo para lá dos limites do amor, do desejo.

    mas o desfecho daquele romance era por demais seu conhecido para poder assistir-lhe uma outra vez. preferia guardar a recordação daquele capítulo inacabado. saltar as linhas indesejáveis.

    pegou numa nota de valor combinado, e deixou-lha no prolongamento dos dedos. respirou-lhe o cabelo solto uma última vez, e saiu silencioso, voltando a página atrás de si.

    sentiu um gelo penetrá-lo até aos ossos. tolhê-lo de rigidez.

    aconchegou melhor a noite ao redor do corpo... e mergulhou no íngreme da calçada.          nocturno.

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horabsurda.com

OBRIGADA HENRIQUE SOUSA


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